quinta-feira, 28 de abril de 2011

Esqueci os óculos escuros

Esses dias, indo embora do trabalho, deparei, ainda no elevador, com um colega que é deficiente visual. Já tendo observado ele outras vezes, sabia que ele seguiria o mesmo caminho que eu. Então ofereci meu ombro para guiá-lo.

Descobri que seu nome é Marcos, tem trinta anos e uma filha de dois. Ele trabalha como uma espécie de secretário do setor de informática, quando na verdade, gostaria de fazer manutenção nos equipamentos. Mas isso só seria possível se fizesse um curso sobre o assunto, adaptado para cegos.

Ele mora em Santo Amaro e tem outro emprego, somando dez horas de atividades diárias. Separou-se da mulher e prefere não ter um cão guia pelas dificuldades que o bichano impõe, como o acesso aos locais públicos e o tratamento com a higiene.

Com um singelo trava línguas, que o obriga a forçar a letra “R”, Marcos me contou histórias de sua vida nos poucos metros que pude conduzi-lo até o ponto de ônibus.

Fui perguntando e ouvindo. Perguntando de novo e ouvindo. E por ficar prestando atenção nos passos do meu amigo que não vê, até esqueci-me de baixar os óculos escuros da cabeça que protege meus olhos da claridade agressiva da luz do dia.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Quem matou o siri-patola?

Mesmo com tanta coisa por fazer, resolvi dividir essa historinha, e ver quem consegue descobrir o assassino do mar. Divirta-se. Semana que vem eu conto quem matou o siri-patola...

A um canto do mar, os peixes vivos contemplavam um cadáver ainda fresco. Haviam assassinado o siri-patola. O inspetor de polícia, comandante peixe-boi examinou o corpo e concluiu logo que fora morte por estrangulamento, mas ficou na dele. Não contou nem para o seu ajudante de ordens, o lerdo peixe cachimbo.
Reuniu o povaréu lá nas profundezas e começou o interrogatório para descobrir o assassino do infeliz patola. O burburinho era geral no recinto. Cada um tinha uma hipótese provável para o acontecido. Havia gente pensando em latrocínio (o patola era um próspero negociante de secos e molhados); outros, que era vingança, porque ele vendera feijão bichado na época da crise; houve quem dissesse que era crime passional: a sirigaita da mulher dele andara de caso com o guaiamu e o camarão. Alguém lembrou que poderia ser alguma transa política: patola deixara de andar de costas (como todo siri) e passara a andar de banda (pendendo claramente para a direita). O inspetor seguia seu interrogatório e ia separando os suspeitos para um canto. No final, ficaram a raia, o tubarão, o polvo, o peixe-galo, o guaiamu e o camarão. Vendo o cerco se apertar, os remanescentes começaram a se entreolhar com ares de suspeita. O peixe-galo foi quem começou:
- É, esse mar ta ficando perigoso à beça e a maré não ta pra peixe. Acho que o guaiamu devia logo confessar o crime, porque estou doido pra voar pra outros mares.
- Pobre de mim – choramingou a fina raia. – Fico lá embaixo na areia e não sei de nada. Ademais, patola era meu compadre. Agora, o camarão... não sei!
- Pra mim – sentenciou o polvo – o camarão e o guaiamu eram os únicos interessados na morte do patola.
- Pera aí – disse o camarão botando as suas barbas de molho. – Eu posso provar que passei os últimos cinco dias fora e só cheguei na hora do ocorrido.
- Comigo também – defendeu-se o guaiamu . – O caso com a mulher aí do defunto é intriga dos invejosos. Além do mais, até agora ninguém pensou no polvo. Ele é cheio de tentáculos e teria muito mais facilidade para estrangular o pobre coitado.
- Olha aí – foi vociferando o tubarão. – Isso foi uma covardia muito grande e o culpado tem que aparecer e pagar pelo que fez.
- Silêncio! – ordenou o inspetor. – Já sei quem é o assassino. Agora, se ninguém pescou o culpado, que trate de acompanhar o relato do acontecimento desde o início, porque ele está aí mesmo.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O acaso (nem sempre) vai me proteger

Hoje vou me dar ao luxo de replicar o texto que publiquei na coluna do Caros Ouvintes. Perdoem-me, mas preciso poupar minhas energias. Mercadoria rara, sabem como é!

Bom, o que eu queria dizer esta semana é o seguinte: não confie tanto naquilo que não depende só de você. Se as coisas derem errado, você não poderá se culpar se estiver comprometido com todo o processo, ao invés de dar atenção apenas à parte que lhe cabe.

Se intere de todos os assuntos e tente sempre dar sua opinião. Assim, ninguém lhe dirá que você não quis participar. Pose para as fotos e clique algumas também. Observe e faça parte, se possível, dos lados da história. Sairás com mais aprendizado e o gostinho do dever cumprido inteiramente.

Acesse o áudio da coluna desta semana no Blog do Caros Ouvintes.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Reflexões matemáticas

Quando contamos o dinheiro que ganhamos, a estupefação jamais se compara a quando contamos o dinheiro que gastamos. Os dígitos somem tão magicamente da nossa conta bancária e apesar do esforço de tanto tempo que temos para adquiri-los.

Veja bem, não estou vangloriando bens materiais, mas não nego que o conforto de ter algum pra gastar é bom e todo mundo gosta. E o dinheiro pode nos dar conforto. E pode nos dar muito mais.

Um carro zero quilômetro, por exemplo, uma casa, roupas, calçados, comida. Dos bens mais basilares aos mais supérfluos. Também pode pagar por um pouco de conhecimento. Aquele que conseguimos por meio de um curso superior. Ora supérfluo, ora fundamental, depende do ponto de vista.

O fato é que ao longo de quase quatro anos na faculdade, fazer esse tipo de cálculo não é nada agradável ao ego financeiro.

Veja porque e outras coisas na coluna desta semana no site do Caros Ouvintes.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Com licença, vou preparar uma xícara

Com exceção daqueles que sofrem com a gastrite, tcçando que se preze aprecia um gostoso cafezinho e suas variações, como o cappuccino, café com leite, com chantilly, creme de leite, chocolate amargo e por aí vai.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Café [ABIC], no ano passado cada brasileiro consumiu 81 litros da bebida, cerca de 200ml por dia. O principal ingrediente do café, a cafeína, é o estimulante legal mais utilizado no mundo.

Mas cuidado. A ingestão de cafeína também tem efeitos adversos, como aumento da pressão arterial, oscilação de glicose no sangue, má digestão, irritação na pele.

Mas como resistir. Ainda mais com aquele aroma! Hum! Com licença, vou preparar uma xícara... [cinco minutos mais tarde] Servido?

Apesar dos malefícios ocasionados pelo excesso, beber um ou duas xícaras de café todos os dias ajuda na prevenção da cirrose hepática, asma, doença de Alzheimer e Parkinson. Além disso, o efeito energizante dos preciosos frutos vermelhos, importados da Guiana Francesa para o Brasil no século XVIII, dá mais estímulo para continuar trabalhando.

Mãos à obra! Um brinde com café!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Acione o cronômetro e prepare o bolso

O aumento da gasolina e do preço da passagem de ônibus, assuntos muito comentados esta semana na capital catarinense, me fez analisar com mais cuidado a planilha de gastos do TCC.

O trabalho de conclusão na modalidade de vídeo é, sem dúvida, o mais dispendioso. E não somente no sentido financeiro, propriamente falando. É o que demanda mais dinheiro, tempo e produção intelectual.

Para que todos entendam, o vídeo conglomerar a pesquisa no assunto; a busca das fontes; a disponibilidade de equipamento na faculdade casado com o tempo na agenda dos entrevistados e na sua; a decupagem (transcrição das entrevistas); a produção de um roteiro; a edição da reportagem; além da confecção do relatório escrito de acordo com as regras da ABNT e do Manual do TCC da própria instituição.

Uma saída para gravação exige que o aluno vá da sua casa até a faculdade para apanhar o cinegrafista e o equipamento, depois se desloque até o local da entrevista, voltando a tempo para não estourar o horário de trabalho do funcionário da faculdade. Até voltar pra casa, lá se vão muitas horas e quilômetros investidos em poucos segundos que vão ser aproveitados efetivamente na versão final do vídeo.

Tcçando, prepare-se para uma verdadeira maratona!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Respeite quem tem histórias para contar

Durante o processo de produção de um trabalho de conclusão, tcçandos de todas as partes se deparam com situações adversas. Respostas do tipo “não disponho dessa informação” ou “não temos autorização” são ouvidas com frequência. Mas elas geralmente vem acompanhada da frase “mas eu sei quem pode te ajudar”.

Nunca estamos preparados para o infortúnio. A expectativa é que tudo ocorra conforme o planejado. Seria esse o curso natural das coisas. Mas a engrenagem não funciona bem assim.

Tenho a dizer que o curso da sua vida pode até mudar, mas não pode mudar a disposição com que você começou sua jornada. Até o fim, ela deve continuar intacta. Concorda?

Não era bem isso que eu queria dizer hoje. O texto acima me pareceu melancólico demais. Então vou tentar ser mais direta. Há que se reservar um espaço generoso, entre erros e acertos, para as histórias que vamos conhecendo ao longo dos tempos.

O desenrolar de um TCC pode guardar surpresas, como uma boa história, da qual você não se esquecerá. “A gente tem que respeitar quem tem histórias para contar”, palavra de quem já me contou várias, Mário Motta.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Procure cercar-se de bons exemplos

Quando surge uma ideia há que se saber se ela é possível. E pedir a devida licença às pessoas envolvidas. Nesse trajeto, pressuponha que o sim e o não irão aparecer na mesma medida.

Quando você fala de uma personalidade querida pelo estado todo onde atua, é fácil imaginar que ninguém vá se opor a dar um depoimento. É isso que tem acontecido comigo.

Mas caso você escolha um tema polêmico, pense que será preciso estar disposto a levar seu trabalho adiante, passando por cima de qualquer dificuldade. É muito provável que você aprenda coisas importantes para o resto da vida.

Coisas do tipo que se deve respeitar alguém que decora um livro de poemas aos nove anos, e meio século depois ainda repete quase todos eles com plena emoção. Coisas do tipo que se deve respeitar quem tem uma história pessoal impressionante, mas prefere que tudo continue no anonimato.

No último dia sete, Dia do Jornalista, fui provocada diversas vezes, de maneiras diferentes, a pensar sobre o exercício da profissão que eu escolhi. Algumas considerações a respeito estão na coluna desta semana, no Blog do Instituto Caros Ouvintes. Acesse e confira!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Simplifiquei

A partir do momento em que determinei que tudo fosse belo, tudo se fez belo. Simples assim. Não foi preciso um filme nem um último capítulo de novela, tão pouco uma música daquelas que marcam época.

Fiz tudo ficar muito simples, a tal ponto de me deixar levar pelo depoimento do meu entrevistado maior, Mário Motta, que quase me fez chorar.

Vejam só, o cara decorou um livro quando tinha nove anos, mal sabia ler e escrever. E meio século depois, ele se lembra de quase todos os versos, sendo capaz de interpretá-los. O nome do livro infelizmente ficarei devendo.

Minha memória anda me deixando cada vez mais desamparada. Estou muito dependente. Das imagens. Das transcrições. Acho que esse ataque de informações diário acaba por levar a mente à exaustão.

Por isso me dei direito a uma trégua.

Mas como assim, com tanta coisa pra fazer? Ei, você tem um TCC pra terminar, diria o leitor preocupado. Ao que respondo: tudo tem seu tempo.

Por isso não se desespere. Reserve uma hora para caminhar no parque, ouvir o som da cidade e pensar em nada. Na volta tudo parecerá muito mais simples. Eu garanto!

terça-feira, 5 de abril de 2011

O caminhão de melancias

Segunda-feira é um dia típico para começar uma dieta, para voltar de férias, para começar num emprego novo e para escrever pro Caros Ouvintes.

Os meus dias estão tão cheios a ponto de todos parecerem com segundas-feiras. Todo dia é dia de partir com mais um caminhão de melancias para um novo rumo.

O motivo das melancias eu explico. O meu mais recente mestre Antunes Severo me ensinou que todo início é parecido com a história do caminhão de melancias: é com o sacolejar do caminhão na estrada que elas vão se acomodando.

Acontece que as melancias do meu caminhão são muitas, elas vão demorar mais alguns quilômetros para se ajeitar. Mas tenho certeza que no final do percurso elas estarão organizadíssimas.

A propósito, os frutos continuam vindo. Está no ar a segunda edição da coluna Diário de um TCC no blog do Instituto Caros Ouvintes. Está aí o link pra você ouvir: clique aqui.

Apesar da dureza da viagem, vou tentar não ficar tanto tempo longe esta semana. Até logo!