Esses dias, indo embora do trabalho, deparei, ainda no elevador, com um colega que é deficiente visual. Já tendo observado ele outras vezes, sabia que ele seguiria o mesmo caminho que eu. Então ofereci meu ombro para guiá-lo.
Descobri que seu nome é Marcos, tem trinta anos e uma filha de dois. Ele trabalha como uma espécie de secretário do setor de informática, quando na verdade, gostaria de fazer manutenção nos equipamentos. Mas isso só seria possível se fizesse um curso sobre o assunto, adaptado para cegos.
Ele mora em Santo Amaro e tem outro emprego, somando dez horas de atividades diárias. Separou-se da mulher e prefere não ter um cão guia pelas dificuldades que o bichano impõe, como o acesso aos locais públicos e o tratamento com a higiene.
Com um singelo trava línguas, que o obriga a forçar a letra “R”, Marcos me contou histórias de sua vida nos poucos metros que pude conduzi-lo até o ponto de ônibus.
Fui perguntando e ouvindo. Perguntando de novo e ouvindo. E por ficar prestando atenção nos passos do meu amigo que não vê, até esqueci-me de baixar os óculos escuros da cabeça que protege meus olhos da claridade agressiva da luz do dia.
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